O amor me tem por completo

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Como eu poderia exigir afeto
Ele há de ser dado como promessa
Eu me dei a ti, não esqueça
Se não me queres, fico quieto
Mas aqui, ao seu lado
Afinal, a felicidade que sentes é sua
Não tenho direito de dizer que acaba

O amor não pune,
Ficarei como sentires feliz
O amor tem seu perfume
E por isso que ficar eu quis
Pois se te fiz feliz, e faço
Neste momento, deve ser hora de encarar
Que não tem espaço do mundo que faça parar
Ou tempo longíquo pra esquecer

O amor segue intacto
Como uma pintura estática no tempo
O amor sempre tem impacto
Talvez não do meu jeito

O amor deve ter gosto das cerejas
Que deixei de ver por estar em casa
Este amor jamais relampeja
Não importa quanta chuva tenha na janela.

L.Giannoni

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Coisa de gente grande

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Eu sou fraco
Acordo atrasado e fico deitado sem poder
E se nada me força a levantar
Sabe-se lá quantas horas vou perder

Se sou agora, serei amanhã
Um desejo aflora de um menino que sonha
Quantas noites que sonho em sonhar,
Pra me assustar com a realidae
Que me pus a imaginar?

Desejos e sonhos, impulsos e planos
Ser fiel a todos é ledo engano
Uma moça sábia me disse um dia
Pra perseguir os sonhos, pois via
O como nos traem os planos
Como sou fraco, no calor de um ato
Tracei uma linha em tinta de caneta
Pra evitar que as borrachas da vida
Ou a conveniência de formas óbvias
No meu caminho depois se intrometa.

Desconfio que o desenho possa mudar no futuro
Então me enjaulei com meu sonho mais puro
Assim o tédio não pode me aprisionar
Assim por mais que seja duro
Não vai me faltar o que amar.

-R.C.

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O seu corpo é mais lindo do que entendes

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As suas curvas devem ser invisíveis
É um mundo todo de sutilezas
Deve ser coisa pra sensíveis
Olhos pra beleza

É um tipo novo de formato
Um estilo além da compreensão
Os olhos enganam de fato
Tenho que olhar pela minha mão

Passando-a lá quem sabe vejas
Onde seus ventos fazem curva
Onde quer que estejas
Sempre deixas razão turva

O vestido, a saia, a camisa
Corpo despido ensaia a dança
Restituído de toda esperança

O cabelo, o pescoço, os pés
No espelho vês grosso, não crês
Você olha e não sabe o que vês.

L.Giannoni

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Terra da Garoa

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Hoje choveu garoa na cidade de São Paulo e, meu amor, senti que a cidade voltou ao seu natural de tristeza que não te vi.

Fazia tempo que a metrópole não se rendia à moda antiga, deixando (por uma tarde) de lado as tempestades ou secas modernas.

Quando senti o sereno no rosto, veio calma advinda de um outro tipo de nostalgia. Era saudade. De uma neblina fraca, mas atrapalhando o olhar, comparado com a visão, de uma rotina que, apesar de nunca tida, eu abandonaria com você.

O amor que tenho por você é semelhante ao amor a deus; acredita-se na existência e defende-se com tudo algo que, pela falta de matéria, é pouco mais que (ou somente) uma idéia. O amor que espero de ti é como o temor da morte; imponente, algo só pensado quando se chega perto. Quero que sejas minha viúva, sem morte ou casamento, e, olhando essa garoa caindo do céu paulista, veja nela as lágrimas, não choradas pela minha não-morte, e o não-luto seja eterno. As lágrimas que espero de ti são como flocos de gelo: frios, escondidos quando sós e claros na abundância. Que venham numa mudança brusca de calor em ti e, por um instante, percebas a falta que lhe faz meu calor.

Choveu hoje e, ao fechar um pouco os olhos para ver melhor, decidi tirar o capuz e sentir a água caindo.

Lembrei de como contei da natureza mágica da chuva, como aparecia nos meus maus momentos e lembranças. Sentindo as gotículas na nuca, tentei buscar em mim o ruim ativador da chuva e vi como sentia sua falta, mesmo te vendo todo dia (quase), pelo fato (em pouco tempo) não mais lhe ver. Não te peço para esperar, meu amor.

Só lhe peço para, quando São Paulo resolver garoar, lembrar-se de mim.

L.Giannoni

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Um passeio pelo parque

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A gente se mantém ocupado
Até se encontrar apaixonado

Sem fazer esforço nem nada
Sendo fiel à flecha, e leva espada

De surpresa, e de repente
Sair da dor domina a mente

Analgésico, opióide, psicodélico e tudo mais
O que tomar necessariamente? Tanto faz

Pego caixas e leio as bulas
Todas dizem, todas burras

Todas disputam atenção dum moribundo
Cujo decorrer soa imundo

Pego livros e leio versos
Por que será que leio versos?

O relógio bate as seis, bate as dez
Me vem à memória os seus pés

Tarado ou saudosista, pergunta o leitor atento
Antecipo ser os dois, mas depende o momento

Ah esses versos, esses pés
Me despertam poesia, ou seria o invés

Esses pés, estes versos
Não os entendo, eu confesso

Seria poesia criando atração
E a leitura, de antemão

Despertou o que estava lá?
Tanto faz, estás longe; que sorte má

E sigo fazendo esse ciclo infinito
Pensando em qualquer coisa, mas é só surgir atrito

Que surge você logo ao fundo
Afinal, não é assim que vive o mundo?

A gente se mantém ocupado,
Até se encontrar apaixonado.

L.Giannoni

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Os anos

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Os anos ficam mais difíceis conforme eles passam
E não há como pará-los
Nem eles, em si, ou sua crescente força
É a natureza da passagem do tempo
O segundo sobe em seu ombro como uma criança brincando
(Drummond avisou sobre o mundo bem como a velhice)
E vão se acumulando até que não se aguenta mais

O que posso fazer, se o peso fica tão grande?
Quem sabe compartilhá-lo.

Quem dirá quão difícil será?
Só o tempo.
Mestre de si, causa e indicador.

-R.C.

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Ainda

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Ainda posso voltar atrás
posso me jogar com tudo
descobrir o que me satisfaz
E mesmo assim escolher outro

Ainda não encontrei meu grande amor
não superei meu último
Nem o antepenúltimo cessou a dor
Ainda nem voltei a procurar.

Ainda penso na minha terra
em como a vida não era simples
acho que erra
Quem me diz que não vale o estresse

Ainda escrevo estes poemas
Que não rimam nem falam
Sobre grandes problemas
Pra ser sincero, só te enrolam.

Pra ser sincero,
Ainda há tempo pro que eu quero.

L.Giannoni.

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Os Barulhos

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O espaço é curto
Minutos tão apertados
Teu corpo num surto
E espírito relaxado

Se perca na minha música
Que não tem nota nem melodia
Mas que dá arritmia única
Pois trás a tona o que você não entendia

Pensa bem, mas não pensa muito
Já sabes quem anuncia intuito
Na sua boca é carnaval, os cantos
Não escondem a festaça ou os gritos

Sendo obscuro, tal anjos não alados
Temos tudo, sem espantos nem espadas
Nem surpresas nem usurpadas
Só esse espaço que nos é limitado

A vibração segue tão firme,
O pericárdio não para quieto
Tens o olhar de quem não assume
Ter enfim se sentido completo.

E na bagunça do meu sussuro
Deixo em ti marca eterna
O teu peito eu esmurro
E bambeia tua perna.

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Uma tarde de chuva em minha antiga casa

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Como uma bandeira de um país que já não existe mais
Cujo hino já não se entoa
E o juramento há muito não é feito.
Mais que esquecido, abandonado
Jogado ao vento sem qualquer significado
Sem origem, sem final
Não eterno, não finito
Quase vazio, mas cheio de algo xoxo.
Se houvesse memória, seria pouca
Se fosse pouco, de nada valeria.

Não há motivo intrínseco para estar no mundo
Mas algo nisso incomoda muito…
Só vale se há grandes feitos?
se há motivações maiores?
Cansaço pela busca desse sentido
E não sei quando isto passará.

Quero salvar vidas mas minha alma se perde mais e mais.

-R.C.

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Dialética

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Não tenho sentido na vida que vivo
Não vejo futuro nesta situação
Mas não vivo nada tão incisivo
Negativo de antemão

Não é que sou triste
Só não estou feliz
Acreditei que quem insiste
Vive sempre o que quis
Espero que deposite
No meu quadro pouco giz
Pois exclamação se existe
Se anima com o que fiz.

Não tenho sentido na vida que vivo
Não vejo futuro nesta situação
Mas não vivo nada tão incisivo
Negativo de antemão.

-R.C.

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