Tem tema mais geral, maior (em relação aos Mini-textos.

Pressentimento – prosaico de Fernando Pessoa

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Há muito já te quero mas não via um momento de dizer. As tentativas foram infinitas, mas o momento nunca parece certo; o sol se esconde, ou minha coragem desaparece, ou brigamos, ou tudo é perfeito, mas falta algo. Eu consigo te descrever desde o fio de cabelo, menina dos olhos, defeitos do nariz, tamanho de pescoço, seios, formato da bacia, volume das coxas e o quanto tu calças. Eu sei o que aprecio em cada uma dessas qualidades e nas que não podem ser observadas. Demora para eu colocar pra fora que te quis e quero.

Sabe, não faz sentido só falar dos seus olhos: que são azuis, você já sabe; a maneira com a qual eles se impõem sobre tudo observado também não é segredo; qual pequeno detalhe eu devo colocar para ilustrar o quanto eles me atraem? Não sei. O mesmo vale para teu corpo, tua mente, teu espírito. Sinto que tua alma me atrai, tua aura me toca- mas se nem os grandes poetas conseguiram falar tudo do amor, quem sou eu pra tentar te dizer? Mesmo a lista completa tem furos, porém, é negligente não listar.

É negligente pois eu hei de te dizer tudo que amo. Mas, quanto mais falo que te amo, você parece não ouvir. É um efeito bizarro: o que eu sinto precisa ser externado, mas entrelinhas parecem inexistentes para você. Se não falo, não te atraio. Se te calo, te espanto. Sem falar do que tenho em mim pra ti, fico angustiado. Preciso falar para que saibas; precisas ouvir para que possas dizer.

Mas não falo. Não ouves. Não sente o mesmo. Não nos unimos. Fico sem voz para ti. Qualquer um vê que perco a vitalidade a cada momento.

Sem mais meios para lhe comunicar, expressar e suceder, ouso pôr em palavras o indescritível, para quem sabe você entenda. Ouso tentar tirar de mim algo essencial, para quem sabe tu sintas o quanto és especial. Tiro da minha mente um pouco de mim, para quem sabe você me tenha contigo…

-R.C.

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Escalas

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Adão corre. Sai correndo pelo corredor extenso e frio da saída do avião. Somente com uma mochila levemente preenchida e uma garrafa d’água nas mãos, não podia ser mais econômico quanto a espaço e bagagem. Muita gente olha. Quem sabe julgando-o por marcar escalas tão próximas, quem sabe só observando. Ele tem pressa. Muita pressa.

Saindo do portão A1, ele olha para os lados e busca uma tela para ver o voo com destino à Bagdá. Os olhos passam rápido pela tela e finalmente, encontra-D1. Coincidência? Talvez. Mas, se tratando do aeroporto de Dalas, um dos maiores do mundo, tudo é possível. Ele é preenchido pela sensação de ansiedade, como se fosse a madrugada antes de um passeio de escola.

Caminhando com velocidade, seus olhos passam pelos olhos estranhos, buscando familiaridade em cores, sentimentos, letras e números. Tantos olhos. Sem nome e sem personalidade, barro a ser moldado no momento no qual ele faria uma pergunta. Mas nada. Não que ele esperasse encontrar algo ali, mas a ansiedade não o deixava pensar normalmente, racionalmente. Era como se fosse controlado por algo, mesmo que fosse dono de suas ações.

Depois de muitos olhos, corpos, três letras e uma quantidade impressionante de números, chega no bendito portão. D1. O avião havia acabado de chegar, pela quantidade de movimento entre os comissários de bordo e passageiros. Ele vê um banheiro a poucos passos, então resolve ir até lá, molhar o rosto, retocar o desodorante, escovar os dentes e etc.

Olhando-se no espelho, a euforia o fez ver cores nunca antes percebidas em seu próprio rosto. Sua pele tinha tons não lembrados- era como olhar-se pela primeira vez seu reflexo. Após 12 horas de voo até ali, era inacreditável como parecia que tudo tinha começado exatamente ali.

Saindo do banheiro, escaneia novamente os olhos do ambiente. Dessa vez, ele encontra.

Era Lilian, uma antiga paixão de adolescente e recém-adulto. Quanto tempo havia passado desde que se viam! Imediatamente ela avista ele também, e dão um abraço. Aquele cheiro era impressionantemente nostálgico, como bolo de chuva. Remetia a uma maciez, uma inocência, persistência tão distantes, mas extremamente recentes. Para Adão, era quase como fosse seu primeiro amor, novamente.

Eles conversam; ela sobre seu tempo em Bagdá, sobre todas belezas, as pesquisas, o seu envolvimento com a política internacional, guerras intelectuais- e destoa por 4 minutos ininterruptos. Ele só ouve-a discursar, atento ao dito, mas com olhares para os trejeitos. A boca articuladíssima, a imposição que tinha tanto pelos gestos quanto pela escolha das palavras, o olhar duro (parecia relembrar enquanto falava, como se, mesmo olhando nos olhos de Adão, visse algo a mais; a guerra, as crianças pelas quais lutava, as irmãs tiradas de situação abusiva, a quantidade enorme de homens reprovando-a por ser ‘forte demais’), a tensão carregada nos ombros.

Terminando o discurso, eles caminham até o café mais próximo dali- o voo dela seria em 1 hora, então ela não tem pressa como disse. A conversa desenvolve para campos mais nostálgicos; de repente, lembravam aos poucos do namoro, curto, mas relevantíssimo, altamente influente apesar de aparentar só um caso de poucos meses- afinal, relacionamentos devem ser grandes (ou eternos). O passado fica para trás, mas não deixa de influenciar o presente. Sem mais delongas, ao perceber que ela não tem compromisso algum, Adão toma o primeiro passo e a beija.

O resto não é relevante para o detalhe, apesar de já passar na mente do leitor. Após muitos beijos, conversa, ela entra no avião e voa de volta para casa, longe dali e longe da casa de Adão. O pequeno caso do passado desenrolou em um pequeno caso no presente, e vira pretérito novamente. E tudo bem.

Pouco depois de ela ir embora, Adão recebe uma ligação. É Luís. Ele atende e já houve questionamentos de todos os tipos, mas focados no fato de ele ter sumido, do nada, e ficado 12 horas desaparecido. Não há resposta do porquê, mas afirma que já está voltando.

“Você viajou pra onde dessa vez?”
“Dalas.”
“Ela sabe que já aconteceu algumas vezes?”
“Não. E nem precisa. Essa é a última vez.”
“Ave… após dez anos? Você contou a ela dos teus filhos? Da esposa?”
“Não. Só queria vê-la entre meu voo de ida e de volta.”
“E como você sabia? Arriscou?”
“Eu nunca arrisco. Foi só uma transição.”
“O que falo?”
“Que tive uma emergência. Não é como se ela tivesse opção.”

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O que aprendi na escola

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Regra número 1: Se você quer entender pessoas, primeiro, entenda plantas.
Ninguém entende a complexidade humana se, primeiro, não entender um jardim.
Antes de entender que, para cada espécie há um adubo, uma quantia de água, um tempo de sol, as pessoas provavelmente vão fazer o mesmo, e dar a todo mundo a mesma quantidade de carinho, atenção, sarcasmo e todos os tratamentos possíveis.
Primeiro veja o jardim, depois, a multidão.
(Nota- por mais que não pareça, o senso comum também não ajuda, o deserto também é cheio de vida e o cacto dá flores lindas. Dar-se tempo para ver crescer é uma escolha sábia, quanto mais plantas se cultivar, melhor.)
 
Regra número 2: Impulso e quantidade de movimento, por mais que se pareçam, não são a mesma coisa.
Ambos têm a ver com força, mas não se engane achando que basta um ou o outro.
Sem impulso, não se tem nada- e as melhores histórias começam desse jeito. Mas ele, somente, não faz com que uma trajetória se mantenha por muito tempo.
A quantidade de movimento é necessária pra manter um caminho longo. Agentes externos são bem-vindos pra empurrar.
 
Regra número 3: A história se repete.
Por mais que tente-se fugir disso, acabamos caindo na mesma muitas vezes. Não é motivo para desistir, muito menos desacreditar. Tudo tem começo, meio e final. Se um bom começo se repete, é sinal que dá pra melhorar. Se o meio vira rotina, pode ser que vá acabar. Se o final não for diferente, já se sabe o que esperar…
Não querendo tirar a individualidade de ninguém, mas o ser humano tende a ser médio nas coisas, então, a repetitividade é inescapável. Por isso, saia do comum- a história, sem dúvida, é feita pelo povo, mas o destaque vai para os Grandes. Seja Joana D’Arc, Napoleão, Mary Curie ou um Graco: diferente do resto.
São esses que serão lembrados.
 
Regra número 4: No papel, qualquer coisa reage. Na prática, não é bem assim.
A teoria menos elaborada na química é só unir elementos em reações- depois, acabamos vendo que não são todas que saem como esperado, por comportamentos facilmente explicáveis.
Por exemplo, a reação entre o Frâncio e o Flúor é totalmente cabível no papel.
Na prática, o Fr não necessariamente será encontrado (afinal, é um elemento sintetizado, em sua maioria) e nada estável. O Fl acaba sendo extremamente reativo com tudo, mas só pode reagir com o que está ali.
Com gente, é igual. Por mais que saibamos que certas misturas não funcionam, ignoramos e fazemos de qualquer maneira, para, depois, analisar e chegar na conclusão óbvia- nunca daria certo.
 
Regra número 5: poesia não é pra qualquer um.
Chega-se à adolescência (ou até na vida adulta) achando que poema é coisa de apaixonado ou careta. Não se está totalmente errado, mas quando damos de cara com alguns poetas, vemos que é mais complicado que isso.
Não é pra qualquer um olhar pros olhos de alguém e ver como é artística a Íris. Ver como curvas em geral são letras e admirar a obra como um todo.
Regra número 6: somos parte da história de onde passamos.
A Terra é muito antiga. O universo muito mais. Enquanto tratarmos a vida como se fossemos os protagonistas da realidade, iremos cada vez mais ser jogados pro canto do palco.
A felicidade começa na realização de que somos coadjuvantes- e tudo bem. Continua no reconhecimento do absurdo que é ser uma pequena parte de algo tão maior. Algo que nem vida tem, mas um passado impressionante- e tudo bem. Além de saber ser secundário, é importante ver que fazemos marcas nos lugares e nas pessoas.
Você é um em sete bilhões de humanos no mundo, mas um em algumas centenas (quem sabe milhares) de pessoas na vida de alguém. Use isso pra fazer uma marca boa nas pessoas tanto quanto no mundo.
 
Regra número 7: mesmo sendo fruto do tempo, é necessário ser contra ele.
É aquela velha história: adolescentes se rebelam contra os pais. Estes, por sua vez, haviam se rebelado contra os avós. E isso segue infinitamente.
Isso porque, já que somos crias de uma realidade (a dita “superestrutura” de Marx), devemos contestá-la. Olhar para ela como se olha um camarão pedido no bar da esquina- você sabe que talvez ali esteja um ótimo prato, mas não quer a dor de estômago depois.
Claro que, com o passar dos anos, todo mundo fica menos ácido, revoltado. Não significa se acomodar, mas sim abster de colocar tanta energia em uma luta protagonizada por alguém mais novo. Você vive no mundo para mudá-lo.
 
Regra número 8: o complexo existe, mesmo não sendo visível.
Em determinado ponto, se aprende a raiz quadrada de números negativos, e a chamada “unidade imaginária” confunde todos os tipos de alunos. Por isso, os professores insistem em falar que os números “imaginários”, são verdadeiros.
É simples, na verdade.
Os números racionais são coisas da vida mais tangíveis. O celular, a caneta, o livro, uma árvore. Os irracionais entram no mistério aparente- o vento, o calor. Coisas explicáveis e sentidas, mas com uma influência externa, consequências externas e inclusive visíveis em alguns casos.
Os números “imaginários” são os sentimentos. Não se toca, não se vê e a única com a qual se há contato são as consequências.
Mesmo sem ver, tocar e sentir o sentimento (do outro, por exemplo) se sabe dele e deve-se reconhecer sua existência.
 
Regra número 9: só sei que nada sei.
Mesmo tendo conhecimento interpessoal, intrapessoal, acadêmico e psicanalítico, gente não é algo muito lógico. A consciência de que toda certeza pode cair nas circunstâncias certas faz parte da sabedoria.
A regra número 9 se sobrepõe à todas as outras por ser infalível (negando até a si mesma).

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Ser e estar

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Meu filho, seja ele um Ezequiel, Gabriel, Leonardo ou Augusto, terá de aprender o valor da mudança. Da transição, da adaptação.
Não irei, em hipótese alguma, dar a casa perfeita para ele viver sua infância, adolescência e ida à vida adulta. Não, ele verá a casa mais simples tornar-se a mais retocada. Ele irá, quando pequeno, brincar no chão com seus brinquedos, este ainda de concreto. Ao sentir suas nádegas doendo, reclamará ao pai, vou ouvir sua reclamação e fazer o que diz a cartilha – ignorar, por hora.
Nos dias seguintes, a frequência de reclamação deverá diminuir, e o menino agora estranhará o chão atapetado da escolinha, sentirá o pátio mais natural. É neste momento que trarei o carpete para o chão da casa. Instalarei-o do dia para noite e, ao jogar-se no duro, sentirá maciez e receptividade. Ainda sim, como faz toda criança, reclamará. E muito.
Minha esposa desaprovará o devido carpete, me forçando a escolher outro, saciando a reclamação do pequeno. Ainda sim, não importa a quantidade de vezes que eu trocasse, ele pediria o chão.
Anos após, decidiremos mudar de casa. Ele, já mais velho, relutará. Conhece amigos na rua, brinca de esconde-esconde (sabendo seus esconderijos). Quando mudarmos, verá a casa vazia (maior do que a primeira) com os velhos móveis. O cheiro da madeira confortará seu pavor pela novidade. Por mais que o chão difira, não influenciará na sua opinião.
À noite, chegando cansado da escola e de suas atividades extracurriculares, ligará o chuveiro na busca de refresco. Este será o primeiro baque. Não me leve à mal… tem algo muito pessoal na área de banho que mexe diretamente com o ser inteiro. É a forma com a qual cai a água (mais concentrada ou dispersa); a cortina ou um box; como liga o próprio chuveiro.
Ao começar seu banho, meu filho terá a visão estranha de que, em toda sua vida (12 ou 13 anos) nunca percebera como devidos banhos começam diferentes de outros. Olhará para o azulejo da parede e verá imagens implícitas (potenciais reflexões enquanto a água cai). Verá a cortina de pano ventando para cima dele, notará no padrão da queda d’água (tão distinta de nossa antiga residência).
Esta pesquisa visual de 2 minutos se repetirá para todas as casas de sua vida. E sempre, no quinto banho, ele já estará conectado com o ambiente e sua nova rotina.
A cama, a luz, a cor da parede, a textura da maçaneta, entre outros milhares de detalhes serão de suma importância para definir o que é sua casa. Em cada uma que eu levá-lo, ele irá experimentar de tudo.
Só assim ele entenderá que a mudança, a transição e adaptação são faces dum todo maior: o da existência. Tudo muda durante um tempo e se estaciona. O ambiente segue mudando, gerando a necessidade de adaptar e, eventualmente, mudar também… o ciclo é inacabável.
Só assim ele entenderá que, a beleza da perfeição é nunca ser alcançada, mas perseguida, levando para caminhos esplêndidos e completamente diferentes.

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Tragédia não, crônica

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Mediante tantos questionamentos, gerados pelo momento social e época do ano, todos têm objetivos e querem algo. Inserido nesse contexto, você deve se perguntar: quais são minhas expectativas para mim?

Você quer emagrecer? Quer enriquecer? Precisa estudar mais? Já se esforçou e precisa de descanso? Terapia vai te fazer bem? Você está feliz, ou tem potência para?

Algumas respostas doerão. O peso precisa ser perdido, mas falta genética. O dinheiro é almejado, porém a crise cada vez mais aperta. O tempo de trabalho toma cada vez mais o de estudo. Não é porque se precisa que se terá- isso se encaixa para felicidade também. Não é porque a necessidade de ser feliz existe (talvez pela ditadura do bem-estar ou questões psicológicas) que ela será suprida.

Pelo momento social, fé em valores ou qualquer parâmetro existente, o mundo tem expectativas para você. Estudar, estudar, prova. Mais provas até vestibular. Se não passar, volte ao início, se der certo, volte ao início novamente. Provas e provas até concursos, entrevistas de emprego, sucesso profissional. Se tiver ou não, há de se achar amor- ah, desejo mesquinho de não estar sozinho. Procure o par perfeito- não, ele te encontrará. Enquanto isso, pegue e largue o que vier. Case, tenha filhos (de preferência 2, um menino e menina, para dá-lo a primeira playboy e ensiná-la bons modos). Aposente-se sem nenhuma conquista grandiosa por você, sem ser, quem sabe, um campeonato de futebol ganho entre ex-colegas de faculdade. Morra e tenha flores no enterro, mas um epitáfio genérico (o além condiz o aquém).

Pegue as suas expectativas consigo e subtraia as sociais: esse é o futuro mais miserável possível, e o único plausível com sua moral de rebanho não superada.

De mais vale, indo contra a escravidão da vontade geral- democracia de porcos -saia da ignorância maior num grito de individualidade falho, e vá até o topo do prédio onde mora (e faltam somente 20 prestações para quitá-lo) e tire as vestes- por um momento lembra-se de alguma notícia haver com 3 da tarde, mas ignora o pensamento.

Tenha o último lapso de unidade consigo enquanto cai e tire seus grilhões junto da vida.

-R.C.

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Brahma e Deus – As Crônicas de um Fotógrafo

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Procurando aventurar-se fora de terras já bem conhecidas por ele Rimor sai pega um avião para uma ilha.

Tendo em mente sua idade (de espírito e cronológica) não é difícil entender o porquê da sua mala estar tão vazia; nela, levava consigo um bloco de papel A5, um estojo com lapiseiras de desenho, sua máquina fotográfica, 3 shorts floridos, uma calça jeans- já muito gasta, rasgada pelo tempo e não pelo modismo-, 5 camisetas claras, uma camisa xadrez, seu único par de tênis, duas garrafas de whisky (compradas com o que sobrou após pagar as contas) e uma mochila de mão. A viagem teria 2 semanas.

Rimor foi para o aeroporto de Uber com sua maletinha e mochila. O motorista perguntou o destino da viagem e foi respondido cordialmente com um: uma ilha. Tentou novamente uma pergunta mais simples; está ansioso? Até que estou. O passageiro não queria conversa.

Felizmente ou infelizmente, sempre fora assim. Rimor preferia ficar sós com seus pensamentos a compartilhá-los ou ganhar conhecimento sobre os dos outros. Na época do ginásio e do colegial deixava os mais exaltados discutirem ou darem as respostas enquanto ele discretamente colocava um fone de ouvido e fazia o trabalho sozinho. Quando indagado sobre os fones de ouvido ou a tarefa pelo professor, só mostrava as páginas feitas e dizia esperar a correção. Sobre os fones, se concentrava melhor com o ruído mais uniforme da música (seja ela eletrônica ou orquestral) do que com o barulho aleatório da sala de aula ou do fuzuê quando as respostas estavam sendo dadas ao professor. No final, todo professor acreditava na história e o deixava continuar naquele estado- mesmo sabendo que era uma meia verdade.

Rimor era muito mais rápido para fazer exercícios do que o aparente. Isto é, terminava os seus em um quarto do tempo da classe (e consequentemente da correção e de toda a cadeia de acontecimentos descrita pelo aluno). O que fazia com o tempo restante?

Bem, as coisas mudavam bastante. No ginásio, ele desenhava. Não como qualquer um que rabisca nas últimas folhas do caderno e arranca depois, alguém que faz objetos obscenos ou qualquer molecagem na mesa ou sequer cópias de coisas vindas de livros. Rimor desenhava cenas, cenários, objetos e pessoas vistas por ele. Se o professor parava em um ponto fixo e a “pose” era apreciada, seria indiscutivelmente desenhada rápidamente- e mesmo após o adulto mudar, ele continuaria a desenhar como se ainda estivesse ali. Se levasse um achocolatado com embalagem diferenciada, seu bloco de folhas seria movimentado para ter mais um objeto no catálogo (até depois de jogar fora o lixo, ele ainda dava os detalhes finais). Quando a menina bonita da sala ia apontar o lápis no lixo e passava na frente da sala, Rimor estava com o seu bloco registrando a passagem com efeitos perfeitos de movimento- depois de ela voltar ao seu lugar, ele desenhava a cena já acabada. Memória fotográfica? Talvez. Mas nada de criatividade. Se não visse, não desenhava.

No ginásio, ele descobriu o poder da câmera. Após ter contato com uma de seu pai, comprou uma com o dinheiro de 3 meses de lanche. Todos os micro-detalhes não feitos por ele nos desenhos poderiam ser registrados com aquilo. Tornou-se um mestre incomparável em ambas artes- a de desenhar e fotografar. Com tanto dom e treino artístico, não era muito bom com pessoas. Claro que tinha seus amigos e amigas, mas eram poucos e fieis, todos cientes de suas “limitações”, e nenhum nunca conversou com ele durante as aulas.

O que nos leva novamente ao Uber, ignorado, a levar Rimor para o aeroporto.

Chegando lá, o motorista recebeu nota 5 de Rimor, mesmo tentado conversar, pois este sabia como era. Despachou sua mala e entrou no avião muito rápido. Não tem medo de avião, mas fica apreensivo em veículos de alta velocidade como trem, avião e etc. A aeronave decolou de Faltário (a cidade) às 22 horas exatamente.

O vôo não está lotado mas por alguma razão, Rimor está sentado ao lado de um homem. O homem é ligeiramente pardo, veste uma camiseta polo verde água e calças cáqui e um chapéu fedora. A figura desperta o interesse do desenhista e ele começa a desenhá-lo. Ao lado desta página, há um desenho de um Alcorão por causa de uma visita feita pelo desenhista a uma mesquita. Quando o figurão percebe estar sendo desenhado, de primeira vai reclamar, mas então vê o Alcorão e encontra uma chance de salvar uma alma.

– Senhor desenhista.

-Desculpe. – Ele se omite, como quem sabe que errou.

-Não se preocupe, não é sobre isso que quero falar – o figurão fala uma mentira – quero conversar sobre este livro que tu tens ai desenhado.

-Este alcorão? Eu não…

-Sim, este mesmo. Onde encontraste para desenhar?

-Fui na Mesquita de Faltário, mas para vis…

-Ah! Conheço lá! Muitos amigos meus vão lá, talvez conheças algum deles.

-Bem, fui lá ver um amigo que estudou comigo no Jonas D’arco, na zona…

-Que interessante, eu estava em Faltário para o casamento de um antigo colega de trabalho que estudou nesta escola… que coincidência, não?!

-Sim, claro. Mas eu…

-Pois é. Bem, puxei o assunto porque vi esse Alcorão e, bem, eu tenho ancestral islâmico, mas meu pai e mãe são ateus.  Tu és..?

-Rimor.

-Ah, prazer. Mas de ancestral?

-Nada muçulmano, acredito.

-Bem, eu fui criado nesse meio. Até certa idade até flertei com a idéia da divindade mas a larguei. Virei jovem e comecei a ir em festa, beber, fumar, falar palavrões, como você deve estar fazendo. Não procurava nenhuma paz, nenhuma verdade. Aí, em dezembro de 2015, eu estava numa dessas reuniões na casa de um amigo e fui fumar um cigarro na rua. Lá, uma mulher passou e me chamou. Eu respondi sem sair da frente da casa. Ela olhou para mim e falou: “Em exatamente seis semanas você vai receber um milagre econômico de Deus. E vai ser do Deus cristão e só deste.” Eu fiquei curioso, quis perguntar de várias coisas como óvnis, guerras, meu futuro e tudo mais. Ela só me falou que isso era o que deus havia a falado, me deu um cartão e foi embora, nenhuma das minhas respostas respondidas. Exatamente seis semanas depois meu superintendente da faculdade me ligou e me falou que eu tinha conseguido uma bolsa de estudos de 50 mil reais, a que eu já estava perdendo as esperanças de ter. Eu ia para a europa fazer alguns cursos maravilhosos. Após essa experiência, eu comecei a aceitar melhor a idéia de algo maior, mas não uma cristandade ou qualquer relig
ião.

-Nossa, parece uma situação inusi…

-Sim! Só que eu não podia acreditar que era coincidência, entende? Ninguém pode prever o futuro! Enfim, eu deixei isso de lado e fiz meus estudos, mas aceitando a idéia de uma entidade. Continuei bebendo, fumando, indo em festas e tudo de mais, só que aceitando isso melhor. Até que 8 meses depois, enquanto eu conversava com um amigo, eu ouvi uma voz. Eu sentia ela falando de dentro do meu coração, e ela dizia: “vá comprar uma bíblia e ler sobre Jesus Cristo e seus ensinamentos”. Eu achei que tava ficando louco! No meio do nada, só ouvi isso na minha cabeça; imediatamente eu fiz isso mesmo. Comecei a ler sobre ele e vi como ele é daora- poxa, ele curou todas as doenças possíveis- e o melhor é que ele está vivo! Ele ressuscitou e voltou ao reino dos céus e está lá olhando por nós! Depois disso, eu parei com tudo aquilo porque eu tinha uma paz interior, entendeste? Eu aceitei Deus e ele veio pro meu coração e logo depois eu aceitei Jesus e ele hoje mora ali! Por isso eu acredito do meu Senhor e meu Salvador, o Único; não Mohamed, Buda, Alá ou qualquer outro deus. E nenhuma religião vai te responder nada. O único que pode te responder suas perguntas é Ele, e tens de perguntar por ti.

-Nossa, deve ter sido transformador. Só que eu já estudei cristiansmo e eu…

-Olha, por isso que quando eu te vi com esse Alcorão desenhado eu tive que falar contigo; e que coincidência! Alguém que estudou com meu amigo! Olha, faça isso: vá numa livraria, compre a bíblia e leia sobre os ensinamentos de Jesus Cristo! Verás que Ele faz milagres, cura doenças, faz tudo! E além disso, pergunte tu tudo o que quiser a Ele. Não vá a uma igreja buscando cura, milagres, peça tu. Tu, Rimor né?, irás…

Nesse momento, o avião (que já estava com algumas turbulências que, para a infelicidade de Rimor, não interromperam o pregador disfarçado de modelo perfeito, com chapéu fedora e tudo mais excêntrico) dá um baque forte e começa a apontar o “nariz” para baixo. O piloto anuncia que o controle sobre a aeronave é mínimo e as máscaras de oxigênio são liberadas. Após ambos colocarem as máscaras, o figurão pega uma folha de papel e escreve em letras capitulares “DEUS VAI DAR-TE UM MILAGRE SE PEDIRES. PEÇA!”. Em resposta a essa mensagem, Rimor pega a câmera e tira uma foto do figurão- se sobrevivesse a esta queda, não perderia toda a encheção de saco por nada, teria uma foto boa (e ela realmente ficou). Poucos segundos após colocar todos seus pertences na mochilinha de mão e abraçá-la com força, Rimor desmaia.

•••

Acorda sentado em sua poltrona do avião. Quando abre os olhos, vê longe os destroços do avião afundando e envolta de si alguns outros. Não entende muito bem o motivo de estar tão ensolarado (meio-dia quase) se estavam voando a noite, ou como ele está ali, tão longe do avião. Ou como sua maleta e mochila estão a alguns metros, na areia, secos. Ele se solta do cinto e cai na areia da praia onde está. Onde está?

De primeira pega seu celular e ele está quente demais para ser ligado. Segundos depois, uma onda vem forte e o assusta, derrubando o celular na água- que ao pesar de resfriá-lo e resfriar o celular, o fez inútil.

Não há ninguém ali naquela praia além dele. Olhando envolta de si, não vê nada perto na verdade. Só água e algumas palmeiras. Anda até suas coisas, as leva para fora da areia e senta debaixo de uma das árvores e abre seus pertences. Tudo em perfeito estado, só bem quente. Tira a camisa e coloca uma branca para sentir menos calor.

Olha para as duas garrafas de whisky e pensa se vale a pena abrí-las agora. Decide que não, as deixaria para depois. Por hora, o importante seria descobrir onde está. Refazendo o caminho do avião de cabeça, ele devia estar em algum lugar entre Brasil e o continente africano, pra cima do cabo da boa esperança; mas onde? Quanto tempo ele ficara desmaiado até descer? Quem o levara para a ilha?

Lembrou-se da mensagem do figurão religioso. Ele nunca pedira um milagre de Deus e nem uma prova, não por teimosia, mas por não sentir necessidade nenhuma de divindade para lhe responder o sentido da vida. Será que após todos estes anos, ele estava errado?

Quando as dúvidas ficaram próximas de iniciar uma cadeia de loucura que seria muito mais difícil parar do que foi começar, ele percebeu algo: o mar. Pela primeira vez em anos, ele tinha todo tempo do mundo para desenhar o que via- o resgate havia de vir e desespero não resolveria muito. E foi o que fez. Pegou seu bloco e saiu desenhando. Quando sua mão cansou, ele descançou um pouco e decidiu ir tirar fotos floresta adentro. Guiaría-se pela bússola da câmera e buscaria algo para comer.

Andando devagar e registrando muito em fotos extremamente artísticas e naturais simultaneamente Rimor se distraiu da loucura que inevitavelmente, sem civilização, chegaria. Mas, durante cinco horas, ele se dedicou a desenhar e fotografar, sem mais e nem menos, achando comida, voltando pra praia, aproveitando mais do que deveria.

Deitado, olhando um pôr-do-sol em expectativa, percebe quão perdido está, e que nem toda a arte do mundo o tirará disso. E então olha para trás e vê as duas garrafas de whisky. Pega uma e enquanto abre, vê as fotos tiradas e vê figurão. Sem saber o que aconteceu com ele, pensa em sua última lembrança dele com a mensagem.Será Deus a força que o deixara vivo ali?Deveria ele zangar este deus?

É aí então que Rimor se depara com o dilema de todo artista em depressão, tendência suicída ou trauma: a religiosidade ou o vício.

O vício é a escolha do garoto, e é assim que ele mata somente em 4 horas ambas garrafas. Como ele não morreu? Não sei. Não se sabe. Mas o fato é esse. Assim como sobrevivera o avião, sobrevivera o álcool. Jogando a segunda garrafa  no mar e rindo desesperadamente de algum pensamento engraçado, Rimor desmaia caindo na água.

•••

A lua está no seu ponto mais alto no momento em que Rimor é acordado com um pé mexendo sua barriga. Ele não acorda, então é jogado no mar. Assustado, grita todos os palavrões lembrados na hora enquanto tira a camisa e a água dos olhos. Olha para frente e vê claramente a figura de um homem velho. Ele é moreno como quem toma sol diariamente, não tem barba alguma (estranho pra idade aparentada), usa uma boina creme, óculos redondos, calça social creme e camiseta amarela.

-Vejo que está assustado. Não se preocu
pe. Pegue suas coisas e vem, vamos dar uma caminhada! – o velho diz animado, com um sorriso enorme no rosto.

Antes de beber, Rimor havia colocado tudo na mochila e abandonado o uso da maleta, então, ele só coloca a mochila nas costas e anda com o desconhecido. Essa é a primeira vez na qual a situação o faz sentir arrependido por não ter comunicação melhor. Andando pelas areias, ambos ficam em silêncio.

Por algum motivo, a bebedeira havia passado e não havia dor de cabeça, só mal jeito na coluna pela posição e lugar no qual dormiu. Esta dor o faz andar desconfortavelmente

-O que você tem aí? – o velho pergunta

-Uma dor nas costas por não dormir direito.

-Não direito, de um jeito o qual você não está acostumado.

-Eu costumo a dormir de muitos jeitos.

-Sim, mas não sem apoio algum, aposto. Se você ir removendo pouco a pouco o apoio, você estaria acostumado. Primeiro, na sua cama. depois, numa outra cama mais dura. Depois em uma mais ainda até dormir no chão. Aí, dormir em um monte de travesseiros, ai dormir em pedras Então dormir em um chão de floresta. Por fim, dormir na areia.

-Até que faz sentido….

-Claro que faz – o velho solta novamente o mesmo sorriso.

Continuam andando um tempo na praia enorme. Rimor, mesmo confuso e com receio, continua a caminhada regularmente, pensando na metáfora nem-tão-boa do velho. Na caminhada, vê a lua em um estado muito perfeito e pega seu bloco para desenhar. Quando passa no Alcorão, nota que o velho viu o tal desenho.

-É um alcorão. Eu desenhei por achar interessante, não sou islâmico.

Eu sei  o que é o Alcorão e vejo que você não é.

-Você conhece o islã?

-Claro. Conheço a essência do islamismo, que é a família. Para eles é a instância mais importante da humanidade. Pro católico, é a compaixão. Pro protestante, o trabalho.

-Sim, com certeza. Qual a sua religião? – Rimor começa a quebrar o antissocial dele para depois conseguir entender o que acontece, mas também interessando-se na conversa.

-Todas elas, mas sigo o hinduísmo. Todas elas querem a mesma coisa, entende? Só muda a essência, que é a base de qualquer religião. É envolta dela que se molda ela inteira. O islã tem como essência a família. Cristãos tem a compaixão. Protestantes o trabalho. Budistas a paz. Todos buscam a mesma coisa; que é a Verdade. Todos querem a Verdade. Religiões são como escadas que levam para o mesmo Templo, mas caminhos diferentes. Todos passam a vida procurando o templo e argumentando sobre qual caminho seguir, quando qualquer um deles você chega no Templo. Mas no final, essa é a vida, procurar o seu caminho, sua Verdade.

-Nossa… isso fez todo o sentido…

-É porque é a sua Verdade. Não porque eu falei, mas porque você vê sentido nisso. Se você ir até uma criança e oferecer um brinquedo, um chocolate, ela faz de tudo por isso. Pra um adolescente, garotos(as), festas, diversão em geral. Para um jovem adulto como você, dinheiro, casa, um(a) parceiro(a), tempo pra passar. Para um adulto, a família. Para um velho como eu a Verdade é só a família e a religião.

-Que louco… quem é você?

-Um senhor. Somente um senhor. Bem, suponho que devo ir agora. Adeus.

-Mas…

O velho entra por entre as árvores e, por algum motivo, Rimor sabe que seguí-lo não adianta. Após um diálogo tão  impressionante, ele segue andando sozinho fazendo a reflexão sobre tudo o ouvido, desde o milagre prometido pelo figurão até o velho hindu a te falar que todas as religiões são as suas.

 

 

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No final da praia, Rimor vê de longe um farol enorme. Suspira aliviado de ver que, havendo ou não gente por ali, um farol é o jeito perfeito de pedir ajuda para qualquer navio que passe. Adentrando a floresta procurando um caminho, vê vários de madeira mas tem um pressentimento estranho. Uma delas é bem aberta. Ali, Rimor vê a possibilidade de simbolizar seu dia com uma última foto do caminho escolhido por ele- não pro céu ou coisa do tipo, mas para o farol e para a vida. Mesmo mantendo-se ateu ou agnóstico, a espiritualidade agora segue ele.

 

 

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Há tentações merecedoras da quebra de princípios

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Dois jovens sentavam-se no meio de uma rua qualquer na cidade de Fruta, no interior de Buenos Aires. Tratava-se de uma noite iluminadíssima, pois além dos postes cumprindo seu papel de luz pública, a lua parecia inteiramente comprometida com o mesmo objetivo. Estava fria, uma das mais nos últimos anos, e ambos estavam indevidamente vestidos, o que causava a infernal sensação de gelo.
Mas eles não tinham problema com isso.
Júlio olhava para Rafaella no fundo do mar castanho. Dava pra sentir quase, somente pela cena, a dor ali sentida por ele. A saudade de casa e dela, alguém que inevitavelmente tornaria-se uma lembrança. Mas ele lutava contra estas dores fortemente. Todos o viam. No jeito de abrir os olhos lentamente, esperando, a cada piscada, ver-se novamente na terra natal; no descaso com quase tudo relacionado àquela terra; na cada vez maior quantidade de tempo gasta olhando um horizonte amiúde inexistente, fazendo-o assim encarar uma parede. Só ela perdia esses sinais.
Rafaella estava ocupada tentando guardar cada detalhe daqueles momentos, não em interpretá-los. Notava na companhia agradável, nos caprichos desnecessários, mas apreciados, feitos por ele – como o abrir de portas abandonado há tempos pelo cavalheirismo, o suporte em problemas quaisquer, sorriso em momentos desesperadores para ele também – e, claro, o silêncio da fuga. Sim, a fuga momentânea de sua pequena vida na pequena cidade de Fruta.
Tudo bem que pequena tinha só o nome- para chegar em praticamente qualquer lugar levava, no mínimo, trinta minutos a pé. A população ultrapassava dez mil, mas cada bairro era tão fechado em si que o número pouco importava- um dia Fruta chegou a 200 mil habitantes e ainda se vivia a vida de cidade pequena, onde se conhecem todos os vizinhos e os filhos geralmente seguem o caminho dos pais. Mas, na época, Fruta acabara de passar por um êxodo, então o efeito de “pequenez” estava muito acentuado.
A rua onde se encontravam era uma das muitas cheias de casas abandonadas (umas recém e outras já a muito). Além disso, era fora de qualquer rota de carro, um caminho estúpido para fazer-se a pé, e com irregularidades, tornando impossível o percurso de bicicleta, portanto um paraíso confidencial de uma argentina e um brasileiro, o berço de um romance doído perpetuado na memória, porém com curto prazo de validade. Numa das casas, uma mais nova, provavelmente recém-comprada e logo largada quando vista a situação da cidade, havia um monte de madeiras soltas. Júlio pegou algumas e montou uma pequena fogueira para ambos. Agora, não precisavam de mais nada: teriam fogo, comida, bebida e a companhia um do outro.
Após acender a tal fogueira (pequena, mas com tal poder de aquecimento), ele limpou as mãos em alguma folha molhada ali perto e sentou-se ao lado dela. Segurou sua mão, levou-a até sua boca e foi beijando dedo por dedo até chegar na aliança. Ah, maldita aliança.
Não havia sido dada por ele; não, aquele caso era bem mais antigo e duradouro. A infidelidade dela ainda não havia sido consumada, mas pouco importava pois a do outro havia (e como). Todos sabiam, todos falavam- menos ela, que nem sabia, não falava ou ouvia, mas pensava muito sobre- e ignoravam, sem falar um pingo para Rafaella.
Nem sequer Júlio, a pessoa mais próxima de um amante tido por ela até ali (e seria durante algum tempo até o fim do namoro no qual mais se amava amantes do que se sentia amado) ousava falar diretamente sobre o assunto. Às vezes emergia, em meio aos flertes tão leves e inocentes mas mal intencionados e carregadissimos de emoção, o tópico. Marcelito mais uma vez estava nas festas de amigos “só para macho”, mas nas quais as poucas prostitutas da cidade sempre acabavam entrando. Ou uma viagem ao campo de 1 semana, porém estendida na metade para 2, talvez 3, na qual uma rapariga se encontrava junto- Ah, como aquelazinha vai pagar… como ousa, praticamente na minha frente!- mas Rafaella nunca sequer levantara o tom de voz, sequer reclamara sobre qualquer aspecto daquele tratamento.
Olhando para o maldito anel, Júlio sentia pena e ódio. Pena por ver uma garota com tanto potencial, tanto talento, conteúdo, interesse na vida, presa num relacionamento nada frutífero como aquela cidadezinha pequena e sem graça (boa por alguns meses, mas nada para a vida) e ódio por aquela relação estúpida estar no meio de um amor tão fervoroso e forte, tal como as últimas chuvas de fevereiro, primeiras de março, que começavam do nada e cessavam em um piscar de olhos, após terem destruído o máximo possível. Ele sabia quando essa paixão havia de acabar, e o fim estava próximo: 4 dias.
Não leve-o a mal; Júlio não era indesejável, tampouco bobo. Ele sempre aparecia nas tais festas de machos e nunca pagava uma prostituta. Ele ocasionalmente flertava com uma ou duas meninas. Porém, quando aparecia Rafaella, tudo acabava. Se ele estava com uma puta em casa, esta sairia pela porta de trás se chegasse a garota. Se estava numa festa e ouvia da boca de um qualquer da “tristeza de Rafaella”, sairia dali no mesmo momento, aparecendo na frente da janela do seu quarto para recitar a ela os mais belos sonetos feitos por ele no momento. Não estava com ela, por isso não havia traição, mas seu desejo de ter algo o obrigava a conservar a imagem pura tida por ela dele.
Aceitar ir praquela rua havia sido o primeiro passo, tomado algumas semanas atrás. Ele caçara o templo para um amor secreto durante meses e quando finalmente o encontrou, conseguiu convencê-la. Foi o primeiro sinal percebido por ele de que, quem sabe, ela considerasse a infidelidade com ele- ou quem sabe, com as loucuras do amor, um namoro.
O sinal não era falso. Rafaella, uma das garotas mais certas da cidade, tão fiel aos seus princípios (como o da própria fidelidade), tão convicta de que Marcelito seria seu último namorado agora caia num tipo de amor diferente de praticamente todos tido por ela até ali. Era uma vontade de pular nos braços dele em um momento aleatório pela certeza absoluta de que seria segurada e abraçada, e aquele abraço era o necessário para estabilizar sua vida já toda definida pela vida de seus pais, determinados a nunca sair daquela cidade. Ela dava a mão como se não soubesse da intenção de Júlio em beijá-la dedo por dedo, centímetro por centímetro, satisfazendo-se assim de modo tão inocente…
Ninguém poderia saber. Em meio a todos, ela agia (diferentemente do seu namorado estúpido) para manter as aparências de ali haver um platonismo eterno- pois não havia uma sequer alma a desconhecer a evidente queda de Júlio por Rafaella, mas as mesmas almas nem suspeitavam da reciprocidade do sentimento. O próprio Marcelito estava ciente mas sua arrogância e prepotência o impediam de imaginar sua eterna fisgada fazendo-o corno (como ele fazia-a sem dó nem piedade). E foi por essa necessidade de anonimato, já imaginada por Júlio, que se encontrou uma pequena rua de casas abandonadas, perfeita para fazer-se uma fogueira na quinta-feira a noite, quando todos haviam de dormir para o dia seguinte (inclusive a menina, mas ela ignorou isso até 1 semana depois, após o amante ir embora, deixando-a com o mesmo sempre de costume). Mesmo numa cidade do tamanho do ovo, o amor era tanto e o desespero igualmente espantoso que Júlio fez da cidade uma metrópole, onde crimes são cometidos a luz do dia e no nariz de uma multidão sem que ninguém o veja. E esse crime estava sendo cometido em tal discrição a fazer até Rafaella esquecer onde morava e ser levada facilmente nas descrições de Júlio.
Ele falava de São Paulo. Contava da Rua dos Trilhos, que em sua simplicidade não tinha nada demais além dos antigos bondes de domingo e no resto da semana os trilhos descançando para mais uma volta ao passado longínquo, mas Júlio falava de andar por ali de bicicleta e cair, de pegar diversos ônibus- mas você não se perde com tantos ônibus? Ouço você falar de incontáveis só perto da sua casa…- para sair com amigos, ficantes, namoradas, de açaí (que mesmo ela nunca ter visto um na vida já tinha como sobremesa predileta, só pela delícia de ouví-lo contar). Também a contava sobre a Avenida Paulista, com toda sua imensidão horizontal- tantos estabelecimentos, a Livraria, os hippies vendendo miçangas a preços ridículos, os casais andando como se fosse lua de mel, a barulheira de megalópole- e vertical- os prédios de incontáveis andares, as torres de rádio a brilhar quando anoitecia, os enfeites de natal colocados para iluminar ainda mais um lugar que nunca conheceu ou havia de conhecer a noite. Júlio falava de levar Rafaella para a Livraria. Os olhos curiosos dela brilhavam sempre que ouviam ele mencionar um lugar tão impressionante: três andares, praticamente todos os livros desejáveis além de CD’s, DVD’s e Blu-ray’s, um café amigável a convidar os clientes a ler um pouco os livros recém-comprados. Ele a levaria ali, e eles sentariam no chão perto da sessão de nacionais, pois nada a agradava mais que poesia (principalmente quando ele a declamava) e ele leria para ela um livro inteiro de Manuel Bandeira.
Além disso também chamava atenção a Galeria. Ela gostava de tango e salsa (vê-la dançar foi um dos prazeres esquecidos por Júlio quando voltou para o Brasil), mas algo sobre um lugar tão diversificado como a Galeria do Rock sempre a convidou. Ela olhava para os anéis nos dedos dele (todos com um significado, mas nenhum de compromisso, o que tornava tudo mais possível, portanto mais complicado e palpável) e desejava alguns para ela, mas também um filtro dos sonhos, uma camiseta, um colar, qualquer coisa passível de compra naquele paraíso. Ele prometia a ela comprar tudo o que não pudesse se ela desejasse. Ele também a falava de ver o pôr-do-sol, mais bonito que qualquer um existente (não que ela conhecesse outro além do da sua varanda e o do Édem- apelido carinhoso da rua anônima), com os prédios enormes e antenas fazendo a sirueta de cidade perfeita, tal como era. As promessas nunca acabavam, ao contrário da vida útil daquele escape.
Quando viu, ela se encontrava abraçada de costas com Júlio, dando beijos carinhosos em suas mãos. Como ela se deixara atrair? Como havia sido seduzida a trair os princípios máximos de sua índole? Ela não tinha feito absolutamente nada, mas só o fato de estar ali, de ter um carinho tão profundo quanta a curiosidade de como seria beijá-lo já servia para pesar sua consciência. Ao mesmo tempo, porém, havia o peso da despedida. Ela podia ignorar e não consumar o fato, mas e depois ficaria o resto de sua vida imaginando como seria se… Se o que? Se eles ficassem, ali naquele momento? Quatro dias antes de ele voltar para sua terra natal e (muito provavelmente) nunca mais pisar em Fruta, faria tanta diferença assim?
Quando esta dúvida surgiu na cabeça de Rafaella, Júlio demonstrou quase um poder de leitura mental, pois já voltava a falar de como havia de levá-la com ele; afinal, ela mesma já tinha dito que nada a esperava ali além do destino de seus pais- viver parcialmente felizes numa cidade onde eles sempre seriam pastores (sua filha, a filha do pastor), seguir a rotina semanal de visitar os amigos (não só os mais próximos) até aos poucos estes morrerem e nunca mais conversarem sobre os antigos tempos de colégio e ensino médio, de besteiras feitas 40 anos atrás e nunca mais algo parecido tinha sido tentado. Júlio a oferencia algo a mais, oferecia um mundo diferente.
Infelizmente ambos não sabiam que parte do amor proibido é e sempre será a eterna promessa nunca cumprida.
Mesmo assim, com tanta culpa e tanta dúvida, Júlio conseguiu virá-la e encará-la. Olhava profundo nos olhos novamente, mas desta vez com menos admiração e mais cobrança. Ela sabia exatamente o porquê. Ela sabia as perguntas. A certeza desejada por ele, o desejo tido. As respostas haviam de ser categóricas: não. Ela não podia ficar com ele ali, não por falta de desejo, mas por excesso de princípios. Se ela não estivesse em um relacionamento, sem dúvida, mas ela pensou a frente, assim como ele pensou todo momento; não havia razão para terminar um relacionamento (mesmo que problemático) de 3 anos por um amor de alguns dias.
Não obstante, quando ele cobrou dela a certeza da reciprocidade, quando segurou a nuca dela e a trouxe tão perto que ela sentia seu rosto transpirar calor, quando falou como quem chora por dentro mas é firme como pedra por fora, ela não conseguiu. Valores são valores e podem ser trocados por alguns instantes para o prazer momentâneo- se ninguém viu, não aconteceu; se não aconteceu, não há culpa; se não há culpa, arrependimento não existe.
E ali, na rua abandonada eles se amaram por mais 4 dias, todos no mesmo horário seguindo a madrugada inteira, mas com um livro de poesia diferente por noite.
Na manhã na qual Júlio foi para Buenos Aires para pegar o avião para São Paulo, Rafaella perdeu uma aula para levá-lo na estação de ônibus. Ninguém nunca soube do caso dos dois de fato, mas presumiu-se uma amizade extremamente forte que a lembrança futura havia construído entre ambos. O ônibus já estava de partida quando Júlio beijou a amante de despedida e chorou. Ela manteve-se intacta, porém com os olhos avermelhados de falta de sono e vontade enorme de desabar, mas olhou para seu paulista e lhe agradeceu por todos os momentos espectaculares dados por ele. Ele agradeceu de volta, mas disse a ela palavras que seriam anotadas por ela, e relidas diversas vezes com o passar dos anos.
“Foge, Rafa. Esta cidade pode ser o seu mundo hoje- e que mundo bom- mas o que há lá fora é maior. É um mundo que te merece e você merece-o. Seu destino pode estar aqui, mas você pode levá-lo para passear em Buenos Aires ao menos uma vez e conhecer a cidade. Tenho certeza que assim como o meu está em São Paulo, o seu está lá. Adeus.”

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Meio louco

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Não me leve a mal, não me acho normal e tudo mais, mas ao olhar pra tudo eu vejo loucura generalizada- mas não loucura igual.
Uns lêem Marx, Engels, Mao Tsé e ficam loucos com o sistema. Eles esquecem tudo e resolvem lutar com todas suas forças contra ele. Ao 1º momento, é um ideal. No segundo, você sai à luta por ele. No terceiro, quebra um banco. No quarto, mata alguém. “Mas por que fazer isso?” “Eles são contra, só querem escravizar…”. O problema é que essa reação parece muito com outra.
Tem gente que trabalha 70% dos seus dias, sofre de gastrite (toma café pra ficar disposto pra trabalhar), câncer (relaxa fumando seu cigarrinho), insônia (logo, toma remédios pra dormir), depressão… e não recebe 60% do que deveria (sem contar o trabalho não pago). Ainda por cima, após tudo isso, clama por mais trabalho e critica quem luta contra. Não só crítica, mas pratica violência contra. Estão loucos de sistema.
Não me leve a mal, não sou a favor de um sistema como esse, que mata gente, sufoca vida e enlouquece de tantas maneiras… mas é realmente necessário cair nos extremos assim?
O mundo cria coisas tão diferentes, dá para não exagerar.
Tem gente que fica bem louco com tudo quanto é droga, tem gente que se tem química não chega perto.
Tem gente que nega deus e não aceita nada sequer próximo, e também outras que vivem de religião.
Há boas loucuras e más… porém não seria melhor um equilíbrio normal?
 

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Uma (rápida) história de amor dinâmico- As Crônicas de um Fotógrafo

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Conheci Maria num lugar diferente: em baixo de um poste.
A gente se trombou ali, deixamos as malas caírem e aconteceu, como se fossemos Eduardo e Mônica. Sem querer, trocamos algumas folhas (por acaso, importantíssimas pra minha prova em 1 semana), e em uma delas tinha o nome dela, e no momento em que percebi o sumiço de tudo, procurei-a imediatamente no Orkut (sim, ainda era assim naquela época).
Começamos a conversar um pouco; ela estava cursando engenharia, eu psicologia. Ela amava física, eu gostava mais de estudar o físico humano. Ela amava São Paulo e o Rio, eu queria era Dubai, Buenos Aires e Toronto. Eu chamei ela pro teatro, ela quis ver filme alugado (posteriormente seria um netflix, mas enfim).
Rápidamente nos tornamos amigos. Ela namorava um tal de Gabriel (gostava do cara mesmo) e eu tava caindo por ela. Digamos que eu não tinha ciúme, mas mesmo assim ela nunca dava muita bola… até o dia que eu chamei ela pra ir pro campinho tirar foto.
Nesse dia ela me viu de um jeito diferente. Como psicólogo, sempre amei estudar a mente através de expressões artísticas e me tornei um fotógrafo. Olhando para ela, tirando suas fotos… ela simplesmente me amou. Em cada flash, senti-me mais amado e mais importante. Em cada pose ela se deixava amar mais, se deixava mais aberta. Uma semana depois, Maria terminou com Gabriel.
Eu não acreditei quando me contou. Ela veio em minha casa, abriu a porta sem pedir pra entrar e chorou. Não porque tinha terminado um namoro de 2 anos, mas porque pensava mais em mim no que em Gabriel. Ela chorava enquanto pedia desculpas por confundir tudo e estragar nossa amizade, sem saber se tentava voltar para ele, mesmo não o amando.
Eu olhei para ela e disse que não havia porque se desculpar, pois o sentimento era recíproco e a relação podia crescer (e muito) com o tempo e profundidade.
Nesse dia, nos beijamos pela primeira vez.
Já estávamos terminando a faculdade, então logo começamos a morar junto- já nos conhecíamos a 1 ano e meio, mesmo o namoro sendo recente.

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Foto por Márcia Kaori

A gente saía sexta para o bar, sábado pro cinema, domingo em casa. Fomos pra Dubai, moramos 1 ano no Rio e voltamos pra Sampa. Visitávamos exposições, teatros e vimos todos os filmes do Netflix. Ela via todas as minhas fotos, eu tirava um monte dela. Eu atendia pessoas na rua de baixo, ela fazia projetos na sala de casa.
Passaram-se 3 anos após o início dessa rotina, e algo extraordinário aconteceu: uma casa foi construída na frente daquele poste e tiveram que derrubá-lo. Felizmente, o dono da casa não quis deixar o lugar escuro, e colocou um “lustre” velho para ajudar… peguei minha câmera anteontem, tirei uma foto dali e mostrei para Maria. Não contei que vou pedir ela ali, mas…
Será que ela aceita?

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Boas vivências

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Boas vivências

Toma outra dose, mandando tudo para dentro de si. Desce queimando, claro, mas o incômodo é outro. A sensação ali é extremamente familiar, quase monótona, pois é a experiência de sempre, independente do lugar onde está: achar o pequeno bar da região, ouvir a conversa dos bêbados locais e tornar-se um dos ébrios.

Eles discutem as novidades alto o suficiente para ele não ter de olhar disfarçado ou sequer fazer esforço. “Cê viu esses sumiço?” “Vi sim, mas era só estrangeiro, então menos mal” “Que será que acontece?!” “Num sei… já faiz muito tempo que acontece esse tipo de coisa” “Meu patrão, desce mais uma pra nóis!”

“Cidade praiana e pequena, não há muito o que se preocupar” pensa Aureliano. “Os viajantes devem encher o saco daqui e vazar.”

O bar é extremamente pequeno. Quatro mesas de plástico Skol, um balcão médio, com a capacidade para abrigar (talvez) 8 pessoas. A vista faz valer a pena, de frente para o pier. Pessoas passam na frente do estabelecimento e ignoram a presença deste, em parte pelo desconforto com tal nível do lugar, em parte pela estonteante beleza das águas.

Olha um pouco além e vê dois barcos navegando próximos. Não entende nada de navegação, mas aquilo é próximo demais para o porte dos veículos marinhos. Ele não consegue notar o fio vermelho descendo de um dos barcos ou que há conversa entre os capitães. Segue a linha provável do caminho com os olhos e resulta em um passeio de barco de uma hora e meia.

Não há detalhes do caminho (e de nada adiantaria, afinal, não conhece os mares dali), mas somente os horários: 13h, 15h, 17h e 19h. Olha seu relógio de bolso, e nele consta 16 horas e 39 minutos. Decide pegar o passeio das 17, mesmo levemente alcoolizado, nada mal seria um pouco de mar. Quando vai colocar o relógio em seu lugar, se pega olhando a ele.

Prateado nas bordas e aberto no meio, de tal forma a tornar visível toda a estrutura interna do dispositivo (aparentemente), protegida por uma camada de vidro. Guarda-o por diversos motivos. Era de seu avô, veterano de guerra, que apesar de nunca ter saído de casa com uma arma de fogo sequer, não ia nem à cozinha sem o tal objeto. Com um girar específico no marcador de tempo (como um cronômetro antigo), o relógio liberava clorofórmio em gás. Por isso ele era mais fundo que o necessário e extremamente pesado. Não poderia deixar acontecer algum acidente e o dono do relógio de bolso morrer.

Além disso, a tecnologia é o asco de Aureliano, e ninguém ousa contrariar seu nojo. Mas o questionamento de todos (incluindo ele próprio) sempre caiu no fato de ele não estar onde está. Ele está fisicamente no bar, mas ao invés de prestar atenção na própria bebida, presta na conversa atrás, e não em seu petisco, no lindo mar ou o próprio céu. Normalmente, culpa-se os tais smartphones por remover o humano de sua esfera, como explicava-se a condição do garoto? Não se explicava, pois com 20 anos, indo para os 4 cantos do mundo (com vida simples pras possibilidades tidas) ele ainda não vivia. Portanto, sem celular ou tablet para olhar as horas, recorria ao clássico relógio de bolso.

Leva consigo, além do relógio, uma faca, a carteira e as chaves da motocicleta. Tudo embalado em sacos impermeáveis- organização sempre será a maior atenção deste.

Olha para o dono do bar e pergunta a conta. Ouve o valor e não se questiona se ele é ou não absurdo para algumas doses de vodka barata daquele jeito; não por confiar na natureza do vendedor, mas por não lhe fazer falta 20 reais, ao passo que com eles, o dono poderia colocar a droga de uma mesa a mais.

Atravessa a rua cheia de areia, não permitindo-o checar se ela tem ou não asfaltamento. A moto ficou estacionada ao lado do bar, e pela pseudo-gorjeta dada, o dono do bar não deixaria ela ser roubada. Ao menos é assim que Aureliano pensa, e certo está. Para na calçada do meio da rua (usado para dividir vagas de carro de vias) e se apóia em um poste. Sente uma tontura forte batendo, e decide deixar o passeio para as 19 horas, afinal, seria o último do dia, possivelmente mais cheio de gente da sua idade e interessante.

Vai até o suposto porto do navio e pergunta para a mulher se poderia comprar lugar para o das 19. Ela o mede, de cima a baixo procurando traços de policial, mas Aureliano é relativamente magro, de chinelos, regata e olhar perdido de quem já não tem fé. Ela permite a compra, e ele supõe estar sendo observado para merecimento de ir no passeio. Coitado.

Compra o seu ingresso e é advertido a estar 19h naquele ponto, pois só então entrariam no barco, e 10 minutos depois iriam. A segunda suposição é de que a mulher, na verdade, estava flertando com ele. Coitado. Morena dos olhos castanhos, cabelo longo e olhar de desprezo, ele logo refutou sua idéia. Despede-se e promete chegar no horário, não perderia o passeio por nada.

Encaminha-se para a moto e olha novamente o horário. Já que seu hotel é na rua de cima, teria duas horas para melhorar sua cabeça e estar pronto para o passeio. Na verdade, o fazia mais pelo esforço de viver a vida de alguém que não ele- o último desejo de seus pais fora direcionado a ele viver a vida do melhor jeito, e a herança o permitiria fazê-lo.

Quando tira os olhos do relógio, vê uma moto vindo em sua direção, e diminui conforme chega mais próximo dele. O passageiro, sem capacete e munido de uma peixeira, coloca-a na barriga do ébrio e o manda passar o celular. Num meio reflexo dado por sua longa experiência em artes marciais, ele dá um leve tapa na faca, fazendo-a sair da linha de seu corpo, e com o cotovelo a derruba. Dá um soco no passageiro e empurra o motorista da moto, o derrubando e fazendo o veículo cair para o lado dos meliantes. Desesperados, abandonam o local rapidamente, sem sequer olhar para o rosto da possível vítima. Mesmo com reflexo reduzido, Aureliano ainda era extremamente habilidoso.

Com sua moto em mãos, faz uma curva para ir ao hotel, passando pela avenida da praia. Sempre olhando para frente e procurando a rua para entrar, perde toda a beleza do mar meio verde e meio azul, cheio de pequenas quebras brancas espumosas, fazendo um deliberado convite para dar um mergulho. Mas ele entra na 3a rua. Sobe ao quarto rapidamente e apaga no encostar da cabeça no travesseiro.


Abre os olhos numa calma absurda. O sol leve ainda bate, tornando o quarto morno sonolência, e não quente insônia. Pega o relógio do avô para ver o horário e se desespera: são 19h. Enfia os chinelos no pé e dirige com velocidade até o cais, voando até o lugar de encontro. Chega em 3 minutos, com o peito explodindo e visão turva do desespero.

Recebe olhares tortos da mulher e do capitão. Dá o ingresso à mulher meio trêmulo, característica advinda da explosão até o lugar. Ela recebe meio impaciente, mas ele não nota nem isso ou o leve corte na mão dela, não tão profundo, mas notável, muito menos a leve mancha vermelha no convés no qual pisaria em poucos segundos.

O barco é bem cuidado mas velho. Aureliano olha para a estibordo, à sua direita, e vê a figura contraditória  (em sua mente) de um pirata. Questiona o sentido de um símbolo da ilegalidade nas navegações para um serviço aprovado pelo governo.

Se o governo aprova ou não… é complexo. Talvez apoiasse os passeios, afinal, movimentavam a economia regional, davam um ar mais interessante à cidade. Mas a verdade é que não apoiaria caso soubesse de tudo. No fim, faz completo sentido o pirata no mastro.

Olha para os lugares disponíveis e escolhe o mais próximo da bóia; não é medroso, mas prevenido. O aviso de segurança é dado e, como nos aviões, ignorado por todos a bordo. As caipirinhas chamam a atenção de quase todos.

São aproximadamente 20 pessoas ali. Ouvindo as conversas, nota o padrão social dali: viajantes ricos e jovens. Sua mãe não ficaria mais orgulhosa, pois apesar de não está se misturando, estar ali é esforço suficiente.

A caipirinha de limão é tudo o que importa para ele. Coloca cada vez mais para dentro, sem notar a distância tomada da costa, o mar agitado e o céu preto. Todos já se organizam para o ataque em uns 30 minutos.

Aureliano começa a chorar. Não entende o motivo, não se pergunta também, acostumado a levar o mundo como ele é, simples ou complexo. Numa das muitas doses, que fizeram sua imagem para a tripulação bem frágil, ele tem um delírio.

– Em seu pseudo-sonho, Aureliano se vê numa das muitas das discussões com seu pai.Eu não quero pai. Não sirvo pra Medicina.

– Tudo bem. Direito então.

– Também não.

– Engenharia? Arquitetura? Contabilidade? Letras? Moda?

– Não pai, não! Para de enfiar faculdade pra minha goela.

– Não vou Aureliano. Mas você tem que achar algo para fazer. Você não pode passar o resto dos seus dias olhando para o teto de casa.

– Mas pai…

– Aureliano, já tem muito tempo que eu devia ter te falado isso. Mas filho, é o seguinte. O mundo funciona como uma noite gelada. Mais do que você conhece, de um jeito só possível pra cima do Canadá. Naquelas noites, temos poucas possibilidades.

“É mandatório acender a lareira. O fogo revitaliza tudo, e ai começa a vida de fato.

“Você vai olhar pela janela e ver neve. Branca e atraente, com os raios de luz da lua iluminando a trilha. As árvores resistirão aquela temperatura e melhor paisagem não haverá. A escolha será óbvia: ir até lá.

“Mas a cada passo que você der, sentirá seu suor congelando. O conforto do fogo pela falta de calor acaba, e você é largado a própria sorte. O questionamento é: voltar ao fogo ou sair ao frio?

“O problema não é um ou o outro, mas ficar no meio. Você não está no conforto ou na beleza, mas no terror da dúvida. O problema, Aureliano, é que você não sequer duvida. Em suma, você não vive. E está na hora de começar a viver.”

Não sabe quanto tempo passou naquela brisa, mas ao sair dela se determina a cumprir o conselho do pai. Só estar ali não bastava, quer viver. E que oportunidade de demonstrar essa ânsia, não?

Pois nesse momento começam os gritos no deck de cima. Aureliano olha a frente uma porta e se joga contra ela, afinal, não havia ninguém olhando ou naquele lugar. Sua respiração acelera, o peito bate mais forte: é a adrenalina.

No andar de cima, os marinheiros revelam sua verdadeira cara. Na verdade, forjam os passeios como forma de atrai vítimas para morte e roubo, como se fosse um conglomerado de psicopatas. E faziam agora o seu prazer, deixando sangue escorrer pelas bordas do navio (como o fio vermelho no casco), assustando Aureliano.

A tripulação é de cinco. Um veleja, os outros matam. Os gritos de cima pararam e a chuva ameaça, sem molhar, mas trovejando. Ele espera a passagem dos marinheiros e corre para o capitão, que, ao invés de gritar, tenta eliminá-lo sozinho.

Mas ele não conta com a faca de Aureliano. De primeira, o capitão morre, e o homem deixa o timão travado, para evitar maiores problemas. Escurece devagar e o clorofórmio passa a ser valioso.

O relógio é furado e atacado de cima para baixo, e quando segura, um psico morre inalando. Uma mulher inocente se joga ao mar, tentando fugir inutilmente, pois acaba morrendo, e os outros três vão em cima dele.

Assim, todo molhado de sangue que escorria, com duas mortes nas costas, vai Aureliano defender sua vida recém conquistada.

Um por um, com facadas, socos e empurrões para fora da embarcação, Aureliano mata todos. Não sorri. Não chora. Apenas olha ao alto e ouve o trovão final antes de cair a chuva.

Ela cai com força. Uma das maiores da época. O navio transborda, mas tudo o que sai dele não é água, mas sim correntes de sangue. Aureliano olha para cima, ciente de seus atos, mas feliz por estar sentindo o banho de alma que está sendo aquela chuva

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