Uma história com 4 inícios (e finais) – o que mudou de 2015 pra cá

Uma história com 4 inícios (e finais) – o que mudou de 2015 pra cá

Existem milhares de maneiras de dizer a mesma frase. Modificar a ordem de certos termos numa frase, usar sinônimos, adicionar e/ou remover palavras (dentre muitos outros instrumentos da Língua) são ferramentas que te permitem expressar ideias iguais de maneira diferente. Expandindo um pouco o uso das mesmas ferramentas, dá-se por exemplo a passagem de duas mensagens com frases parecidas. Ou mensagens completamente diferentes com expressões diferentes. Enfim, o meu ponto é que o Português, por si só, já é extremamente versátil e comporta muitas formas de comunicação.

Imagine misturar essa versatilidade à arte. A imensidão de sentidos e maneiras gera um vão para olharmos e compararmos como se diz e porquê.

Por isso que hoje, quero falar de sobre uma imagem poderosa. Eu não sei exatamente o porquê ela é tão forte, por quê causa um certo desconforto inconscientemente. A imagem aparece em 5 vídeos do Rap nacional- ‘O Que Separa os Homens dos Meninos’, Sant; ‘Crime Bárbaro’, Rincon Sapiência; ‘CORRA’, Djonga; ‘Bluesman’, Baco Exu do Blues; ‘Deus do Furdúncio’, BK- de maneira similar: a imagem de um homem, negro, correndo.

Pode parecer muito aberto, e quase desnecessário colocar essas cenas uma ao lado da outra. Afinal, tem atitudes comuns, e não necessariamente isso significa algum tipo de correlação, porém a similaridade visual delas e o como elas tratam a cena en questão é particularmente interessante dentro desse universo.

Discutir racismo no rap não é novidade alguma- pelo contrário, pode-se chamar até de tradicional, dentro deste universo- e todo bom MC que está dentro do chamado “rap de mensagem” fala, em algum momento no mínimo, sobre o tema. Com posição combativa sempre, como é de se esperar do gênero originário do movimento hip-hop, em relação ao abuso, opressão e quaisquer desigualdades, os artistas divergem em como passar a mensagem. Gostaria, por meio deste texto, traçar paralelos entre os vídeos citados acima e, com sorte, mostrar um panorama interessante de se debater.

Começamos com o videoclipe de 2015, faixa-título do primeiro volume ‘O Que separa os Homens dos Meninos’, do Sant. O tom sombrio do clipe e da música são notáveis e não há tentativa alguma de amenizar o sentimento denso sentido pelo autor nos ouvidos ou olhos do leitor[1]. É um soco após outro. Em 1:22, começa a corrida. Não há ninguém envolta, o contexto é, literalmente, nulo, visto que até o momento só havia ‘takes’ do mesmo rimando. Em 1:40, a câmera volta para a correria, no qual Sant está num túnel (que aos poucos escurece), tirando a camiseta preta e jogando-a no chão, ficando com somente com uma regata branca (usada no começo do vídeo). Juntamente com essa cena, é dita a célebre frase:

Não sou o próximo a jogar minha sorte pro destino; isso é exatamente o que separa os homens dos meninos.

Sant
Foto por @caduandradee

O clipe continua, assim como a corrida, e termina com um simbolismo de Sant fechando um contrato- ou pelo menos, encontrando uma maneira de viver na música. Essa cena que antecede o segundo verso, na minha visão, é muito importante, principalmente tendo em vista a narrativa que tento construir agora; nessa sequência ao mesmo tempo que não se tem ideia palpável do que exatamente Sant está correndo de, o rapper fala que não vai ‘jogar a sorte pro destino’. A sobreposição desses contextos pode significar, que, de alguma maneira, a corrida em si não tem um final ou começo exato. O passado do autor é conhecido, mas o futuro é preenchido pelo imaginário de quem ouve.

Claro que com o final do clipe fica a tendência de ver o final daquele caminho como o estúdio, mas vem comigo, você vai ver que faz sentido.

Os próximos clipes vêm três anos após o primeiro. Não me leve a mal, 2016 e 2017 tiveram obras relevantíssimas (anos extremamente ricos inclusive), mas só após um certo crescimento e amadurecimento da cena nacional seria válido preencher aquele tal vácuo que foi deixado naquela corrida sem início ou final. E cada um fez de um jeito.

O segundo a ser tratado por aqui é ‘CORRA’, do Djonga. Vindo num álbum espectacular (O Menino que Queria Ser Deus), foi o primeiro som deste a ganhar um videoclipe. Desta vez, continuamos sem início ou final. Mas o contexto? Mais rico. O clipe passa por diversas imagens violentas em todos os sentidos- desde guerras, fotos perturbadoras e até imagens do rapper dentro dessas TVs- e faz transição para imagens da luta racial norte-americana, algumas pessoas (que aparentam ser amigos do MC), e termina com homenagens à falecidos.

Foto pega na matéria do Pirata Cultural sobre CORRA

Há quem argumente que a corrida do vídeo é fruto da referência usada pelo rapper na música inteira, na letra e título, o filme vencedor do Oscar Corra (original Get Out); e não é errado pensar assim. Pelo contrário, até acrescenta camadas de interpretação à tudo isso. Porém, levando em consideração como o ‘corre’ é tem uma imagética própria no Brasil anterior ao filme, é possível se analisar sem colocar tanto o dito cujo em holofotes.

Dentro da letra e do mundo interno da música, há três momentos. Começa com uma corrida sem saída, dentro de tanta violência, tanto sofrida pelo povo preto quanto a violência intrínseca à existência humana (a guerra), dando um desespero enorme no leitor. Conforme as imagens e as expressões vão mudando, vê-se a possibilidade de melhora por meio da luta, e logo já temos o destino- lutar pela emancipação total. Ao mostrar fotos de Black Panthers, por exemplo, a mensagem deixada é que não se ‘joga’ a sorte, mas sim se contrói.

O terceiro é ‘Crime Bárbaro’, do Rincon Sapiência. A música abre a obra-prima ‘Galanga Livre’, vindo logo após a faixa introdutória, contando a história de Galanga, escravo que mata o senhor dono do Engenho no qual era escravizado e foge. Apesar de se tratar dum texto da época  da escravatura, o clipe não segue essa tendência- pelo contrário, não deixa de ser mais atual, coerente não só com a música, mas com a época. Dessa vez, a resposta dada é de onde vem a corrida, mas não exatamente onde acaba.

Rincon, que pode estar encarnando a versão atual de Galanga, corre de um policial, claramente mal intencionado. Entre tiros, gritos essa perseguição rende todo tipo de violência, que só termina quando Rincon está no chão, sangrando um monte, e o tal PM jogado ali também, cansado. O clipe mostra de onde vem toda essa corrida: dos tempos coloniais. E não é surpresa, que a tal dívida histórica cai ainda em debates. A escravidão, mesmo tento sido proibida, gerou ódio racial, uma fenda enorme entre a geração de riqueza entre brancos e negros entre muitos outros.

Capa do disco Galanga Livre de Rincon Sapiência (2017)

O autor, terminando o vídeo no chão, com ferimentos de bala, junto do policial que o feriu, manda uma mensagem de que ambos lados estão sendo/serão prejudicados, mas um lado com certeza sofreu/sofre/sofrerá mais do que o outro[2].

Sobre o início, pode-se dizer que há dois. O início dessa corrida acontece quando europeus se intrometem no desenrolar das civilizações em curso na África no século XVI. O outro possível início, mais correlativo com o conteúdo escrito da música seria o momento no qual Galanga mata o senhor de engenho, uma metáfora (quem sabe) para a revolta do povo preto contra uma elite branca e racista, se empoderando e reconquistando seu espaço numa sociedade na qual, além de base, são maioria.

O quarto é ‘DEUS DO FURDUNÇO’, de BK’. Este é um caso intermediário entre as faixas anteriores e a última, visto que, ao mesmo tempo ele é o videoclipe de uma música presente no álbum Gigantes e também retoma alguns momentos do próprio, mesclando esses momentos com uma narrativa relativamente simples- mas, como as anteriores, poderosa. A parte em questão do clipe é entre 4:38-5:24 [3]. O protagonista, acompanhado do que parece uma entidade (o Deus do Furdunço em questão), está algemado no meio fio, com um policial acompanhando-o. Por alguma ‘magia’, a algema cai e o policial adormece, e neste momento começa a correria para fugir da possível cadeia. A imagem do protagonista olhando para trás e correndo cheio de intensão em direção à câmera é extremamente satisfatória tanto visualmente quanto como símbolo.

BK’ no clipe do single que ganhou remix em Gigantes: Correria

No final, o clipe mostra que o Deus do Furdunço e o protagonista eram a mesma pessoa (uma fita meio Clube da Luta mesmo) e fica entendido que os problemas criados pelo deus foram, na verdade, criados pelo protagonista sós.

A visão da corrida ter início baseado em uma ação própria e ter como fim si mesmo é extremamente sugestivo, e nos leva a crer que a emancipação foi ocorrida, diferente dos clipes anteriores, nos quais esta é objetivo. Vale ressaltar que o BK’ não nega o racismo em momento algum do clipe (ao contrário, tanto o policial quanto o babaca da boate na qual o protagonista se encontrava podem ser lidos facilmente como representantes da estrutura racista), mas sim faz o movimento encontrado tanto no álbum Gigantes quanto no OMQSD e no Bluesman, que segue- essa ideia inclusive veio do Thiago El Niño, no vídeo do Quadro em Branco sobre…

Blvesmvn, filme oficial do álbum de mesmo nome do Baco Exu do Blues. A segunda cena desse filme de 8 minutos (isso é uma deixa para você vê-lo, vale muito a pena, assim como todas essas músicas) já mostra um jovem negro correndo, que dá base para o filme inteiro. Baco brinca com a expectativa, pois não dá nenhuma dica exata do porquê da correria além do semblante preocupado do moleque. Quando chega o final e você entende a pressa e a mensagem como um todo, vale muito a pena ter assistido tudo.

Nesse caso, não vou me expandir muito sobre, visto que estragaria a experiência de assistir o filme pela primeira vez. O que vale comentar é a semelhança do enquadramento, movimento de câmera e foco da cena inicial de Blvesmvn lembra muito a cena específica citada do clipe de Deus do Furdunço. O que esses clipes tem em comum é o colocar o jovem preto como criador do seu próprio caminho para ‘correr’. A principal diferença? O meio.


Se você chegou até aqui, por que não lê uma outra matéria aqui do LdM que envolve o Baco Exu do Blues, “A alma do rap“?

Fica a dica!

Enquanto Baco usa de diversas metáforas como a da Prata como valorização do povo preto, trata bem diretamente sobre sexualidade de maneira singular, BK’ segue com seu estilo de rima com sobreposição de antíteses que não necessariamente são tão opostas assim, mas dentro do contexto, fazem extremo sentido sobrepostas.

Uma narrativa que começa ‘vazia’ em 2015 com OQSHM termina (ou não) em 2018 com Bluesman. Uma corrida que começa quase sem saber nada ganha camadas e mais camadas com o passar do tempo.

O objetivo desse texto não é, de maneira alguma, explicar exatamente o que cada artista quis dizer em suas respectivas peças, mas sim ter em vista a maneira qual se contam histórias hoje e como os artistas tentam pintar a realidade de maneira diferente com o passar do tempo e com diferentes experiências.

O que importa é que essa corrida, em todos os casos, já está sendo feita.

E a cada movimento, faltam menos voltas.


[1] Leitor e derivadas serão usados levando os clipes e músicas como textos a serem ‘lidos’, mesmo que visualmente.

[2] Nesse momento, você pode estar achando que ‘Crime Bárbaro’ é minha faixa favorita da lista, e por isso ganhou mais espaço no texto. Mas não, não é o caso. Acontece que, enquanto os outros usam uma cena dessa correria tema, esse clipe é basicamente ela, então, ganhou um pouco mais de explicação.

[3] Mais afrente vou fazer referência à um plano específico no minuto 5:12-5:20

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